O Pacto - Vitor Frazão

  Clóvis estava sentado no centro do círculo protector, quando a lâmpada do candeeiro começou a piscar e a velas em seu redor a abanar, embora não houvesse brisa.
  3h30. O fim aproximava-se.
  As baratas e ratos saltaram das fendas na parede para o soalho, fugindo em pânico perante o poder profano que convergia sobre a sala.
  3h31. O relógio no pulso de Clóvis parou e a lâmpada extinguiu-se, deixando apenas as velas para iluminar a leitura. A temperatura caiu a pique, as tábuas do soalho estalaram e uma gota de sangue pingou entre as letras impressas, escorrendo do nariz do jovem, que continuou a ler, mesmo quando uma figura sombria, vestido no fato ensanguentado de Clyde Barrow, se materializou na sala, erguendo-se das sombras. 
  – Clóvis Barnabé – clamou a criatura, apoiando-se na bengala esculpida com a madeira do Wasa, inundando o espaço com a sua voz cavernosa e o cheiro azedo a sangue, putrefacção e cinzas – os teus 33 anos entre os vivos chegaram ao fim, é hora de honrares o pacto de teu pai e vires comigo. Resistir é inútil, a tua alma pertence-me e arrastá-la-ei pelos Portões Negro do…
  – Yah, dá-me só dez minutos, pode ser? Estou mesmo no último conto.
  “Cachopos! Já ninguém respeita as Forças do Inominável…” queixou-se a entidade sombria, sacando do relógio do Capitão Edward Smith e dando um pontapé na barreira protectora, que na sua opinião era uma anedota, capaz de ser pulverizada pelo arroto de um diabrete de 3ª categoria.
  – Ó que se lixe, tenho tempo – autorizou, guardando o relógio e encolhendo os ombros perante a insignificância de dez minutos face à eternidade. – Que lês?
  – Vollüspa – Antologia de Contos de Literatura Fantástica.
  – Bom?
  – Excelente.
  – Posso ler, quando acabares? Não quero abusar…
  – Na boa.
  – Fixe.

3 comentários:

d311nh4 disse...

LOL Gostei!
Totalmente imprevisível ;)

Sandra disse...

ahahaha muito fixe :)

Joel-Gomes disse...

Óptimo crescendo, começa como uma aparente história de terror, mas termina de forma cómica. A transição de um género para o outro é bem feita, nada forçada. Conseguia ver isto como um sketch da Britcom, embora nesse caso eu mudasse a publicação que Clóvis lê.
Tudo resumido, é uma boa demonstração da versatilidade do autor.

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